“Sou filho do êxodo rural”: Conversamos com Ramiro Vidal Alvarinho

by karlotti

“Sou filho do êxodo rural”: Conversamos com Ramiro Vidal Alvarinho.

 

090712 novafoto2Galiza – Diário Liberdade – Militante da esquerda independentista galega, autor de brilhantes artigos de opiniom e poeta, falamos com Ramiro Vidal Alvarinho, que nos apresenta a sua última criaçom “Letras de Amor e Guerra”.


Diário Liberdade – Conta-nos algo de ti. Donde vem Ramiro?

Ramiro Vidal – Nascim em Ferrol em 1973, no seio de umha família operária; concretamente sou filho do êxodo rural da década de setenta, como muitos dos meus companheiros de geraçom. O meu pai e a minha mae som da mesma zona, da paróquia de Mántaras, em Irijoa. A diferença é que o meu pai já mudou Mántaras por Ferrol tendo meses de vida (ainda que passando os veraos em Mántaras) e a minha mae emigrou sendo adolescente à mesma cidade para servir numha casa. Mas de facto foi nas festas de Mántaras que os meus pais se conhecêrom.

A minha infáncia transcorreu entre dous bairros operários: o Alto do Castinheiro, em Narom e Carança, em Ferrol. Os últimos anos da minha “etapa ferrolana” estám bastante marcados pola estampa das mobilizaçons operárias em protesto contra a reconversom naval de meados de oitenta (um processo bastante traumático e devastador para a comarca de Trasancos)

DL- Combinas a tua faceta de poeta com artigos de opiniom em diferentes meios, entre eles o Diário Liberdade. Há separaçom entre o Ramiro ativista politico e o poeta, ou todo fai parte de um conjunto?

Ramiro – Dissociar a faceta artística com outro tipo de compromissos nom creio que no meu caso seja possível. Que a minha predisposiçom a escrever a ponho ao serviço da minha militáncia política é evidente, porquanto no artigo de opiniom, que é o outro dos géneros em que mais me prodigalizo, a temática política e social é a que mais toco, e certamente nom por acaso. Aí a vertente mais de puro ativismo complementa-se com a artística.

DL – Recordas a primeira vez que recitaste poesia? Continuas a manter essas sensaçons quando te enfrentas ao público?

Ramiro – A primeira vez que recitei poesia foi numha festa das letras na escola da Solaina, em Narom. Tinha sete anos! Naturalmente, nom era um poema próprio. A primeira vez que recitei algumha cousa de criaçom própria foi na Ocupa da Ria (também já choveu) e lembro que participárom Emma Pedreira Lombardia, Xavier Vazques Freire, Silvia Pardo e acho que Noelia Grandal. Foi um desastre, pola minha parte. Penso que desde entom ainda aprendim a recitar e a controlar os nervos, ainda que por descontado a tensom seja necessária e mesmo beneficiosa.

DL – É usual que apareça o teu nome em diferentes atos políticos-sociais do país. Segue a ser a poesía esse arma carregada de futuro?

Ramiro – A poesia no pensamento é fundamental, mesmo tenho refletido internamente sobre esta questom, e às vezes fago mençom na minha escrita a conclusons que tiro, a partir do meu, se quigeres, modesto entender, dessa reflexom interna. É freqüente as pessoas com umha consciência política clara, com um compromisso nacional e de classe claro, fazerem alarde do seu desprezo pola poesia como meio de expressom, e eu acho que há que distinguir; umha cousa é estar disconforme com a presença que se concede aos poetas em determinados atos de massas e outra cousa é desprezar a poesia. Na filosofia, há poesia, com certeza; desde o Tao até Niestzche, passando polos filósofos da Grécia clássica. Na religiom, indubitavelmente, e nom há mais que dar umha vista de olhos ao al-Corám ou à bíblia. E na política, claro. Que líderes revolucionários como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, o Che Guevara ou Ho chi min cultivassem a poesia nom é um acaso. E no Livro Vermelho de Mao, nom há poesia? Isto para nom falarmos da influência literária e estética do que para mim é o paradigma do poeta revolucionário galego: Curros Enríquez.

Na cultura moderna, a poesia tem umha presença inegável, desde os cantores de intervençom que musicárom poetas de todos os tempos, até a cultura pop e rock. No niilismo do punk, na épica do heavy metal, no culto ao indivíduo e à liberdade do rock and roll nom há poesia?

DL – Tés umha dilatada trajetoria como poeta, e isso fai com que, quando compós, o fagas pensando em elaborar um livro ou compilaçom de poemas, ou estas cousas nom se vam planificando?

Ramiro – Há poemas que surgem porque tenho a necessidade num momento dado de os escrever, sem que em princípio tenha pensado em “encaixá-los” num livro, outros surgem da necessidade de oferecer um poema para umha situaçom determinada, mas no caso de “Letras de Amor e Guerra”, os poemas nascem dentro de um projeto concreto que eu tinha intençom de materializar num livro.

DL – Como nasce “Letras de Amor e Guerra“?

Ramiro – Dentro d’A Porta Verde do Sétimo Andar se me reclamava, de algumha maneira, que elaborasse um projeto de livro; nom é umha obrigaçom imposta, mas os meus companheiros assinalavam como umha espécie de “anomalia” o facto de que eu nom tivesse nada individual e em papel. Sendo honrados, eu também tinha vontade de desenvolver um projeto puramente próprio, e a coleçom “Q de Vian” foi umha ferramenta propícia para saldar essa pequena dívida comigo próprio e também para resolver essa “anomalia”. Devo agradecer o total apoio de todos os membros d’A Porta Verde do Sétimo Andar para que “Letras de Amor e Guerra” seja um sucesso.

ramisbomDL – O livro está editado por “a Porta Verde do Septimo Andar“. Que papel consideras que tem este coletivo na hora de difundir a poesia na Galiza?

Ramiro – Acho que o coletivo, com sete anos de vida que tem já, tem neste momento um prestígio mais do que merecido, mas ainda passará um tempo até que se valorize na sua justa medida o seu labor. O papel que se vai jogar nom já na difusom da poesia, mas da criaçom literária em geral vai ser de umha importáncia crescente. Quando o sistema editorial atual, baseado na subvençom, acabe por caducar por inviável, o modelo auto-organizativo que nós propomos será a via real de difussom da produçom em galego. Seria injusto dizer que somos os únicos a praticar esta via, claro. Aí estám Penúltimo Acto, o Colectivo Sacou ou os Poetas da Hostia. Por citar três exemplos.

DL – Que implica este coletivo a nivel pessoal para ti?

Ramiro Vidal -Passar a trabalhar no seio deste coletivo significou ter umha atividade muito mais intensa e frequente a nível artístico e ter um
contato mais direto com muita gente do mundo das artes e das letras na Galiza, e fora da Galiza também. Também estreitar laços com um grupo humano diverso mas enormemente dinámico. Todos os membros da Porta Verde tenhem em comum umha grande vontade de fazer cousas, e isso é verdadeiramente motivante.

DL – Que datas tés marcadas na agenda para quepodamos ir ver-te apresentando “Letras de Amor e Guerra”.

Ramiro – Por enquanto, só há previsto o lançamento da Corunha (dia 12 de Julho às 20:30 horas em O Fogar do Lecer, na Praça da Cormelana) Vam-se fazer mais atos de apresentaçom, mas o calendário está por elaborar; pressa nom há muita, porque o mês de Agosto nom é hábil a efeitos de fazer este tipo de cousas, mas para Setembro esperamos visitar uns quantos pontos do mapa. Quero dizer que estou disposto a ir alá onde me chamarem.

DL – Recitanos um pouquinho, para saber que ocultam essas capas…

Ramiro – Habitamos um canto doloroso

Existir resulta difícil

Quando fás parte de um organismo infectado e deficiente

Somos massa, a nossa lucidez é umha miragem

Um reflexo incerto de passado discontínuo

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